Eu peço a um anjo que leia essa carta para o meu pai

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Eu peço a um anjo que leia essa carta para os meus pais.

Ivonete Rosa – 25 de dezembro de 2017 

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Mãe, a senhora não sabe ler. Pai, o senhor mal soletrava as palavras e, a essas alturas, aos 80 anos,  a sua visão deve estar bem fraquinha e o senhor não levou os seus óculos para o céu. Por isso eu pedi a um anjo que leia essa carta para vocês. Eu só quero falar algumas coisas que  nunca  disse enquanto estavam aqui comigo. Na verdade, quero mesmo é agradecê-los e falar de uma saudade que me disseram que passaria com o tempo, mas que tornou-se presença  constante.

Pai, eu virei escritora, sabia? Vou te lembrar de quando isso começou: foi lá no nosso sítio, quando eu tinha uns 9 anos. Eu me lembro, pai, do dia em que o senhor foi à minha escola buscar meu boletim e a professora Hergina me elogiou muito e te disse que eu estava escrevendo muito  bem e que não errava nenhuma palavra nos ditados. Vi em seu semblante o orgulho estampado, daí voltamos para a nossa casa montados no cavalo Roxão. No caminho, o senhor me disse: “minha fia, a partir de hoje é você que vai escrever as cartas para os seus tios lá de Brasília”. Eu me assustei, pai, fui pega de surpresa e não me sentia preparada para aquela atribuição, mas o senhor parecia saber o que estava fazendo.

Daí, chegamos em casa, e o senhor pediu para que eu lavasse as mãos, levou a nossa mesa para debaixo do pé de manga que ficava na lateral da nossa casa, levou também o banco, o seu caderno que era reservado só para as cartas e a sua caneta. O senhor deixou claro para os meus irmãos que não queria ninguém fazendo barulho por perto para não me desconcentrar. Então sentamos no banco e o senhor começou a ditar a carta que seria entregue ao tio Porfírio, começou mais ou menos assim: Fazenda Brejão, município de Posse – Go, a data e o vocativo: Prezado e querido mano.

O senhor ditava pausadamente, enquanto conferia a minha caligrafia. Quando terminava a carta, o senhor me pedia para ler novamente e assinava. Em seguida dizia: “a minha carta tá pronta, agora, do outro lado do papel, ocê escreve o que quiser para o seu tio”. Então, no verso da carta sempre tinha uma mensagem de minha autoria. A carta era enviada e, tempos depois, respondida. Meu tio sempre elogiava a carta, a caligrafia etc. Então eu fui promovida a “escrevedora” de carta do senhor e de alguns vizinhos.

Aquilo virou uma paixão, pai. Eu podia perceber que o senhor acreditava em meu potencial e era tudo o que eu precisava para acreditar em mim também.  Com sua simplicidade de  caipira,  plantou em mim um amor desenfreado por escrever cartas, tempos depois, redações, poesias e textos e  sei que isso evoluirá para muitos livros. Prometo, em todos os meus livros, fazer uma dedicatória para o senhor, tá bom? Pai, muito obrigada por ter me apresentado essa paixão que tanto me alegra a alma e que, de certa forma,  ajuda  outras pessoas também. Pena que o senhor não está aqui para dividir essa alegria comigo.

Mãe, para a senhora, eu quero falar de uma das lembranças mais lindas que carrego: nós duas molhando a horta na beira do rio. Todas as vezes que sinto o cheiro de coentro e de cebolinha, eu viajo nas lembranças, mãe. Aquela horta linda e bem cuidada, aquele rio maravilhoso, os pássaros cantando nas árvores e nós duas dentro do rio jogando água nas hortaliças com uma cuia feita de cabaça. Outra coisa: foi com a senhora que eu aprendi a amar os animais. Lembro-me  do seu cuidado com os bichos no nosso sítio, do seu zelo e paciência com os animais que tinham alguma deficiência e da sua indignação quando via alguém com espingarda ou estilingue passando na estrada. Obrigada por esse legado, mãe, isso para mim é uma riqueza.

Pai e mãe, todas as vezes em que viajo de avião, em  meio às nuvens, eu tenho a sensação de que estou bem pertinho de vocês. Eu fantasio que estou indo ao encontro de vocês, que me esperam sentados num banco de madeira em frente a uma casinha bem simples. Sobre o banco tem há um bule de café e, todos os cachorros e gatos que tivemos um dia estão deitados ao redor de vocês.

A tua saudade corta feito aço de navalha (Pena Branca e Xavantinho). Estejam com Deus, até um dia, meus eternos amores.

 

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